Aconselhamento

O que é Conselheiro? Quais são os seus objetivos na Comunidade Terapêutica? Qual é o seu papel na recuperação dos pacientes? Qual a sua participação na equipa Terapêutica? Quem é o Conselheiro?

Para responder a estas perguntas apresentamos alguma informação quanto ao perfil e características do Conselheiro e respetiva evolução ao longo dos tempos.

Antigamente acreditava-se que estes profissionais deveriam ser alguém com uma experiência no mundo das drogas e que esta identificação proveniente dessa experiência tornaria o aconselhamento viável. Também se pensava em alguém que, por conhecer os "truques" e artimanhas do uso de drogas, pudesse vigiar o paciente e estar disponível para a aplicação do programa terapêutico. Pensava-se que tal pessoa deveria ter um perfil de autoridade, liderança, pulso firme e incapaz de sentir compaixão ou permitir-se ser manipulado. Felizmente estes conceitos foram-se diluindo com o tempo.

Dada a complexidade do seu trabalho o conselheiro precisa de vários atributos para desenvolver o seu papel, sendo as mais importantes das suas habilidades, o amor e a compaixão.

Competências:

Prevenção

O conselheiro participa no planeamento e desenvolvimento dos programas preventivos actuando em programas de redução de danos, identificando factores que desencadeiam o uso indevido de drogas e propondo medidas e acções para prevenir o eclodir de factores desencadeantes.

Triagem

O conselheiro avalia e encaminha adequadamente cada indivíduo; orienta apropriadamente os seus familiares, recolhe, regista e organiza informações, transmite clara e precisamente com o domínio de vocabulário técnico científico as informações recolhidas, tendo em conta preservar o anonimato de cada paciente.

Recuperação

O conselheiro sabe conduzir reuniões de contexto em processos não psico-terapêuticos. Interpreta prescrições e orientações terapêuticas; identifica sinais de co-dependência; conhece fundamentos de terapia ocupacional, trabalhoterapia e de lazer adequados ao tratamento. Conhece modelos de intervenção em contextos de interacção social; modelos de abordagem sócio-cultural e de reinserção social; identifica quadros de desintoxicação e de sindroma de abstinência; sabe aplicar recursos de primeiros socorros.

Pós-tratamento

O conselheiro sabe desenvolver o planeamento pessoal; sabe avaliar com eficácia os resultados; comunicar-se e relacionar-se com eficiência e cooperar com a equipa multidisciplinar.

Perfil actual

O conselheiro deve ser tratável, social e acessível. Deve mostrar interesse sincero pelos problemas das pessoas, tratando-as como pessoas que são e não como "um caso". Deve também reunir características pessoais como a compreensão, relevância, flexibilidade e sensibilidade. Ter uma vida exemplar, digna e integra, destacar-se pelo equilíbrio emocional, sobriedade e descrição, estar motivado para a vida, ser optimista em tudo o que faz. Deve ter reconhecimento técnico e espiritual, saber distinguir o uso de ambos os conhecimentos e usa-los apropriadamente, um em favor do outro em vez de os confrontar. É conhecedor de uma experiência espiritual e também não ignora nem subestima a acção científica. Deve entender-se a si próprio, ter plena consciência das suas limitações, imperfeições e da sua condição humana. Se não se compreender a si mesmo, dificilmente compreenderá os outros. Deve dominar os seus próprios desejos e saber lidar com os seus sentimentos. Por fim, deve estar disponível para trabalhar com quem lhe pedir ajuda onde quer que seja. O trabalho só é bem sucedido a partir da dedicação e doação ao paciente.

O terapeuta (conselheiro) deve desenvolver estratégias para motivar o paciente. Essas estratégias consistem em:

- orientação
- barreiras
- escolhas
- empatia
- feedback
- objectivos

Orientação

A orientação clara estimula a mudança. Quando prestamos orientações baseadas em dados estatísticos e científicos, informamos o nosso paciente que tais informações não possuem um cunho persuasivo, mas técnico, real. O objectivo não é convencê-lo mas informa-lo dos riscos. Os conselhos por si só não produzem efeitos suficientes de motivação na mudança por isso é necessário termos informação correcta, sem fantasias ou exageros, mas informá-lo usando fontes de confiança especializada.

Barreiras

A outra abordagem importante é identificar e remover o máximo de barreiras que possam estar a impedir a motivação à mudança. Existem situações que podem servir de impedimento ao tratamento adequado: algumas das origens do próprio serviço como distância, complacência, abordagem inadequada, custos exagerados, etc. Outras barreiras podem ter origem no paciente como resistência ao tratamento, inibição e introversão, falta de identificação, contexto cultural, confidencial, etc. O papel do conselheiro nesse caso é auxiliar o paciente a identificar as barreiras e superá-las, procurando acções que venham reformular o pensamento quanto à barreira.

Escolhas

Qualquer paciente que sinta a liberdade ameaçada apresentará resistências, as pessoas não gostam que lhes digam o que fazer. Um dos grandes problemas em algumas comunidades terapêuticas é justamente a não-condiçao de se fazer escolha, ou seja, a falta de alternativas que por diversos factores, seja por falta de recursos ou a visão fechada para apenas uma forma de acção, acaba impondo ao paciente o tratamento sem lhe dar a chance de concordar ou não com o método. Proporcionar as escolhas ao paciente com abordagens alternativas pode diminuir a resistência e mudar a motivação do mesmo no comprometimento com o programa de recuperação.

Empatia

Ao contrário do que se pensa a empatia não é a característica ou tendência de identificação com os outros mas uma habilidade a ser aprendida e desenvolvida para que haja a compreensão dos significados de outra pessoa para uma escuta reflexiva quer se tenha ou não experiências semelhantes. O estilo de aconselhamento empático requererá do conselheiro muita atenção em cada informação sobre o paciente, alem da reflexão sobre tais informações.

Feedback

Quando se está perdido dificilmente se pode planear chegar a algum lugar. Quando se está envolvido de mais em algum problema não se pode contemplar a saída, nessas horas o conselheiro deve proporcionar um feedback ao paciente. Esse feedback pode ocorrer de diversas formas, desde simples expressões de preocupação ao check-up ou manifestações de preocupação por parte do grupo, sugestões claras sobre possibilidades de reverter o quadro e motivar afirmações . Fazer com que o paciente perceba em que estado se encontra, suas consequências e riscos.

Objectivos

O feedback por si só pode não trazer qualquer objectivo de mudança se faltar no indivíduo objectivos ou padrões claros. Esclarece-los quanto aos objectivos e padrões é tarefa do conselheiro. Descobriu-se que ajudar pessoas a estabelecerem metas definidas facilita a mudança, desde que tais metas não sejam consideradas pelo paciente como utopias. É importante que o paciente perceba que o programa no qual ingressou é claro em relação à sua metodologia, filosofia e prática.

O conselheiro em dependências emocionais e químicas deve procurar compreensão espiritual para aconselhar os seus pacientes. É comum fazer-se o papel de acusadores, mas não é esse o papel do conselheiro. A tarefa não é de acusador, podemos até apontar o erro como vimos mais acima no feedback, mas não acusar, condenar, faze-los pagar pelo erro. Não é esse o papel do conselheiro.

Como conselheiros não podemos achar que somos representantes da justiça divina ou da justiça terrena, pelo contrário. Somos representantes do amor e da misericórdia. O amor é um poderoso instrumento terapêutico. A mudança não se impõe a ninguém, propõe-se. A proposta é que todos tenhamos uma vida em abundância em todas as áreas e essa vida passa por uma procura individual de cada um de nós. Alguns precisam de ajuda para realizar essa procura. Cabe-nos a nós mostrar o caminho. "Recuperar é encontrar um mendigo dizendo ao outro onde encontrou o pão".

Conselheiro
Luis Filipe